Rio de Janeiro: conservas de peixe

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Territórios

Publicado em

23 de Julho de 2026 às 09:54

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A verdade é que índios nunca foram bons influencers."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Vibro com o sucesso das conservas de peixe espalhadas pelo\nRio de Janeiro, mas me entristece notar que as únicas técnicas de conservação\ncitadas, tanto por parte dos jornalistas quanto dos próprios chefs, têm\ninspiração japonesa ou nórdica. Quem sabe, depois da derrota do Brasil na Copa,\ncitem só as japonesas..."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Grande parte dos jovens chefs sonha em ir para Tóquio para\nentender de abate, sangria, limpeza, maturação e preservação de peixes.\n Juro que dá para ser mais barato."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Sou filha de uma antropóloga que escreveu mais de 30\ntrabalhos sobre nosso homem pré-histórico e teve um de seus livros prefaciado\npelo grande Claude Lévi-Strauss. Muito graças a ela, passei a vida analisando a\nliteratura que apagou o que é nosso. Além dos dela, colecionei os meus."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"As palavras foram muito bem escolhidas, desde a expressão\nNovo Mundo. E o que é novo? É o imaturo, que precisa aprender, está sendo\nformado. Ou seja, parece que o homem que ocupa as Américas há pelo menos 20 mil\nanos não aprendeu nada, não contribuiu com coisa alguma e sobreviveu por sorte."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Me lembro nos tempos de escola em que NOS ENSINAVAM (vejam\nbem... não foi algo que ouvi dizer... eu estava lá) que índios só não foram\nescravizados porque eram muito preguiçosos. Vejam só."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Hans Staden, um dos primeiros cronistas de alimentação do\nBrasil “muy sem querer”, aprendeu rapidinho que não era bem assim. O soldado\nalemão capturado pelos tupinambás – uma tribo antropofágica – quase virou\nalmoço, coitado."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O ano era 1554. Foi naquele primeiro registro escrito que\naprendemos que curar carnes e peixes sobre varas verdes apoiadas sobre troncos\nde madeira, acima do fogo lento, tinha o nome de MOQUÉM."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Nosso nativo não fazia livrinho de receitas, mas a prática\npassada por tradição oral já era milenar. E até hoje, o moquém é um dos nossos\nmétodos de conservação mais autorais."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Foi nosso clima úmido que nos obrigou à secagem."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Se amamos farofa – a raiz seca da mandioca – e carne seca em\npaçoca, agradeçamos aos trópicos e às técnicas indígenas de conservação.\nAfinal, todo alimento que sobrava da caça ou pesca aqui no Rio, era assado e\ndefumado no moquém. Alguns se comia inteiros e outros eram desfiados e torrados\nnovamente, triturado em pilões de madeira, reduzidos a pó e guardados em potes\nbem secos e vedados com folhas. Muitos eram socados com farinha de mandioca ou\nmilho. Podiam durar um ano, sem estragar."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Sonho com um imaginário “menu-degustation à la tamoio” no\nRio de 1618, feito de moquém de pacas, capivaras, veados, tamanduás, antas,\nmacacos e porcos-do-mato, além de polvos, lagostins, dourados, meros, moreias,\npescadas, tainhas, cações, albacoras, bonitos, lavradores, peixe-espada,\npeixe-agulha, xaréus, salmonetes, sardinhas e jacarés. Tudo acompanhado por\nfarofa de milho ou mandioca. Nem a ostra escapava!"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"No século XVII, nosso paladar seguia mais seco que o\neuropeu, obviamente, já que eles precisavam da gordura para lidar com o frio"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Por aqui, que frio?"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"E a trend “nativa” obviamente não parou, nem nos 1800..."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Luís Edmundo, em seu livro “O Rio de Janeiro dos Vice-Reis\n(1763 a 1808)” conta que a grande massa que não pertencia à nobreza,\nmantinha-se fiel “à alimentação do avô-índio”. Não ligávamos para a carne de\nboi, carneiro, porco ou cabra. Era peixe e cachaça a forração do carioca médio,\nmesmo com a abundância das outras carnes, que aliás eram baratíssimas."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"E o moquém segue sendo citado por Debret, no século XIX, ou\nainda no livro Sertão Carioca, de 1936, que falava do “pombeiro de peixe”\ncomerciante que ia a cavalo da Barra até o Irajá \"pombeando\" traíras,\nacarás e bagres secos à freguesia. “Tudo por ali é um vasto mundo ainda virgem,\ncom um homem ainda meio primitivo, vivendo da caça, da pesca, do fruto\nsilvestre, em rancho á beira do brejo ou na matta, solitário com os seus cães,\na sua quasi piroga (canoa), o seu páo de fogo irmão do bacamarte, a sua rêde, a\nsua tarrafa, o seu isqueiro, o seu facão, a sua panella de barro, o seu\nmoquém”."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O mais curioso é saber que o hábito indígena de amassar a\nfarinha de mandioca seca com as mãos e atirar um montinho apertado na boca,\nainda está “vivo e passa bem” na Laguna de Araruama. Quando estive com os\npescadores da região no ano passado, comendo tainha assada na areia, vi\nprepararem uma deliciosa farofa com vinagrete. Juntei com a mão e pimba!\nAcertei o olho..., mas passemos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Sou encantada com as voltas que a gastronomia dá, com a\ninfluência de cada país exerce na nossa gastronomia. Não se força a identidade\ngastronômica de um povo. Ela \"acontece\" e se desdobra como a nossa,\ndependendo do que é a moda, da influência econômica e política dos países, de\nbarreiras alfandegárias, tanta coisa. Mas convém não esquecer o que é nosso, há\nmilhares de anos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Com tanto Josper pela cidade, vai que agora alguém se anima\na moquear alguma coisa?"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Aliás, e por falar em moda, sabe o katsuobushi, aquelas\nlascas de peixe seco-seco-seco que importamos do Japão para colocar em todo os\ncardápios moderninhos do país que usam ponzu, dashi...? Pois é. Moquém."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"E sabe de que peixe ele é feito? De bonito-listrado, dos\npeixes mais abundantes da costa fluminense."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Índios... pffff!... Péssimos influencers!"}}],"version":"2.18.0"}

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