Rio de Janeiro: a rua do Senado, no Centro do Rio, vista do estômago

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Publicado em

2 de Julho de 2024 às 16:13

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{"time":1773405813129,"blocks":[{"type":"paragraph","data":{"text":"Há muita literatura sobre a história do Rio de Janeiro. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Aqui, tentamos enxergar tudo através do estômago.
"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Espremida entre dois morros que foram postos abaixo – o do Senado e o de Santo Antônio – a Rua do Senado sofreu, por muitos anos, as consequências dos arrasamentos. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Graças à poeira e ao caos que se seguiram, sua presença nos jornais de época era frequente, mas quase sempre na seção de queixas da população, que convivia com a lama, a escuridão e o mau cheiro, ou protestava contra “ladrões e gravateiros” que se escondiam nos destroços da derrubada. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"N’O Volantim, publicação de 21 de agosto de 1823, enquanto a rua ainda tomava o apelido de Beco da Caçoada (ou Cassuada), um cidadão afirma que era “quase intransitável” e que havia “lama, entulho, rãs, sapos, pererecas”. Um outro jornal, arremata: “onde foram demolidas várias casas, cujos destroços servem de esconderijo a ladrões e gravateiros”. E no meio disso tudo, a sede da Câmara Municipal."}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"image.png","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/image_RnQxzOf.png"},"caption":"Chalhoub 1996","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Naquela rua, havia uns trechos melhores e piores, mas até o fim do século XIX, funcionava mais como local de conveniência para quem vivia ali, do que com algum protagonismo. A imensa maioria dos moradores era de funcionários públicos, além de guarda-livros, tipógrafos, sapateiros, pintores, operários e, ocasionalmente, médicos ou procuradores. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Era uma rua de retaguarda, com depósitos de cereais; algumas padarias que também supriam outros restaurantes; gente que fazia “empadas, sequilhos e marmeladas, branca ou vermelha” sob encomenda; fábricas de cerveja: hotéis sem vocação turística: umas poucas casas de pasto e botequins. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Como não era hábito haver anúncios em jornais ou cardápios em restaurantes mais simples, além dos “cantados” diretamente ao freguês, há pouca pista sobre o que serviam. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A chegada da Família Real trouxe vida cultural e uma profusão de teatros e casas de shows que se estabeleceram na Rua do Lavradio e em torno da Praça Tiradentes. E a vida da Rua do Senado e arredores ficou tão interconectada aos espetáculos, que vários pratos, restaurantes e bares foram batizados com o nome de peças ou atores. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Na Rua Espírito Santo – atual Pedro I, que liga a Rua do Senado à Praça Tiradentes – o restaurante Maison Moderne, em 1886, trazia no cardápio um filé com o nome da atriz francesa Sarah Bernhardt, considerada uma das atrizes mais famosas de todos os tempos, depois de sua turnê pelo Rio de Janeiro."}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"image.png","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/image_MbotLWA.png"},"caption":"“O Programma- Avisador”, 4 de junho de 1886","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"paragraph","data":{"text":"No número 76 da Rua do Lavradio, entre as atuais Senado e Relação, o restaurante Éden, que também aceitava pensionistas, foi batizado em homenagem ao Theatro Éden-Lavradio, no n.96. Na publicação em francês chamada Étoile do Sud, naturalmente dirigida a estrangeiros, o Éden-Restaurant foi bastante anunciado ao longo do ano de 1895 como um dos estabelecimentos recomendados da cidade. "}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"image.png","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/image_SwpzZe6.png"},"caption":"“Étoile du Sud” (publicação para estrangeiros no Rio), 22 de junho de 1895","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O maior rastro documental da gastronomia da Rua do Senado, no entanto, começa a partir de 1906, depois dos dois aterramentos, num terreno já plano que permitiu que florescesse. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Logo depois do desmonte do Morro, em 1907, surge o “Armazém Senado”, que segue firme com seus 115 anos de existência. No cardápio da época: sardinha frita, bolinhos de bacalhau e um curioso tira-gosto chamado \"mec-mec\" ou “sacanagem”. Servido no palito, vinha com provolone, tomate, cebola, salaminho e pimentão. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A partir dessa data, surgem as belas fachadas históricas que vemos, ainda hoje, e notamos uma quantidade crescente de botequins, padarias, casas de pasto (as precursoras dos restaurantes), cafés, secos e molhados, hotéis e açougues, ali listados. E, agora, para além das fábricas de cervejas, depósitos de café."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A região da Praça Tiradentes fica ainda mais rica em teatros, lá para o início do século XX, e três deles ficavam na Rua do Lavradio. Da necessidade de comer ou beber algo, antes ou depois dos shows, é que atores, cenógrafos, redatores e outros, emprestaram à Rua do Senado os primeiros contornos de boemia."}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"image.png","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/image_osB9Euo.png"},"caption":"","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Quando lembramos que o horário de jantar no fim do século XIX se dava em torno de 16hs, e o da ceia, às 18hs, chama atenção que os estabelecimentos da Rua do Senado ficassem abertos “até 1 hora da noite”, como era o caso da Tim-Tim por Tim-Tim, uma ‘casa de petisqueiras’ na esquina de Lavradio com Senado, e um dos restaurantes mais longevos da área, inaugurado em 1888. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"As petisqueiras eram casas simples, em geral de comerciantes portugueses, que tinham cardápio cantado pelos garçons. Serviam pratos como peixadas, bacalhoadas, papas à portuguesa (a precursora da nossa batata portuguesa), leitõezinhos dourados, tripas e feijoadas completas. Os funcionários, em geral, faziam o serviço em “mangas de camisa”, enquanto nos restaurantes, os usavam uniformes ou jaquetas brancas de linho. "}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"image.png","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/image_kmSAUdP.png"},"caption":"","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"image.png","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/image_oOJV4oq.png"},"caption":"“Diário da Noite”, 16 de setembro de 1958","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O Tim-Tim por Tim-Tim funcionou até 1967 com uma clientela célebre, que incluiu Sarah Bernardt e sua contemporânea, a comediante francesa Réjane; diplomatas, Paulinho da Viola, que frequentava a casa nos anos 60, ou ainda o ex-presidente José Sarney que, em entrevista a Ancelmo Gois, em dezembro de 2008, cita o Tim-Tim como um dos preferidos da sua juventude. Seu cardápio de almoço e jantar era publicado, com bastante frequência, no jornal A Época, entre os anos de 1917 e 1918:"}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"image.png","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/image_Uf3kki5.png"},"caption":"“A Época” , 15 de outubro de 1917.","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"paragraph","data":{"text":" Já a Garoto do Senado, casa inaugurada em 1922 na rua Carlos Sampaio, esquina com Senado, tinha como especialidades as pescadas, peixadas à portuguesa, ostras, camarões e canjas. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Seus anúncios traziam pratos portugueses tradicionais, “Hoje! Hoje! Sarrabulho à portuguesa” ou “tripas à moda do Porto”, mas também, comidas popularizadas pelos africanos escravizados, como “vatapá” ou o popularíssimo “zoró de camarão”, prato de camarões secos com quiabos e ‘mulato velho’ (o bagre salgado e defumado). "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Nos copos, “Vinho verde diretamente recebido de Cabeceira de Bastos. Pode garantir que não há melhor no Rio de Janeiro! O Garoto do Senado avisa aos apreciadores do bom vinho que não deixem de experimentar”.  "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"No romance de João do Rio, Armando dá pistas do que se poderia comer num frege da Rua Espírito Santo, “devorou o caldo verde com grossos pedaços de pão, devorou o bife, sorveu meia garrafa de vinho, mastigou duas bananas”. Era assim."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Numa coluna de 1931, Ruben Gill, do Diário da Noite, faz “entrevistas oportunas sobre os problemas momentosos da vida carioca”. Em conversa com Manoel Rocha, ex-ator e proprietário da casa de petisqueiras “O Solar dos Barrigas”, entendemos que a casa tinha gabinetes reservados e, também, reconstituía o cenário da opereta homônima. De acordo com Gill, Sr. Manoel conseguia fazer esgotar todas as noites, as lotações e os pratos de sua casa na Rua do Senado, onde “noceurs de bom gosto” se reuniam para saborear as criações típicas da culinária lusitana. O jornalista pergunta com estranheza, que utilidade as instalações telefônicas tinham numa casa tão atraente, ao que Sr. Manoel responde:"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"- “Ah, o telefone? É a melhor invenção do mundo gastronômico! Tenho a impressão de que os aparelhos telefônicos foram inventados para toda gente encomendar-me “iscas” e assegurar mesas para os almoços, os jantares e as ceias!”. Era o prenúncio do que estava por vir."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Mais adiante, na história, outro depoimento reforça a conexão entre a Rua do Senado e os teatros:"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"“Eu vivi em muitas casas na Praça Tiradentes e nas imediações: Pedro I, Rua do Senado, Rua do Lavradio, Gomes Freire. (...) Saía pela manhã, almoçava na rua. À noite, saía do teatro e jantava, também por ali. A moradia dava direito a chuveiro, e se a família fosse camarada, a gente podia usar o fogão uma vez ou outra” – nos conta Dercy Gonçalves, a jovem vedete dos anos 40 no livro “Dercy: de cabo a rabo”, sua autobiografia assinada por Maria Adelaide Amaral."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"E viva a nossa vedete, símbolo de irreverência e liberdade feminina!"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Outro ícone carioca também faz história, desde 1965. Naquele ano, o sobrado da antiga padaria de Pietro Mandarino, na Rua do Senado, 273, foi comprado pelos donos da Padaria Globo, em Botafogo, e ali passou a ser - e é até hoje - a fábrica de um produto que é a cara do Rio: o Biscoito Globo."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"
Finalmente, depois de tanta história, chegamos à conclusão de que UM PRATO foi comum a todos os restaurantes, freges, petisqueiras e casas de pasto da rua: a CANJA. De longe, o maior símbolo de boemia, era servida a partir das dez da noite e alimentava artistas e convidados que deixavam os espetáculos arados de fome. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Pedro II (1825-1891) talvez tenha sido o responsável pela moda. Tinha o hábito de tomar uma canja entre o segundo e o terceiro atos de uma peça, e só depois de avisarem que havia terminado, seguia o show.    "}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"image.png","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/image_qgNSt0K.png"},"caption":"“Gazeta da Tarde”, 27 de abril de 1896","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"paragraph","data":{"text":" Símbolo da vida dos artistas e de quem caminhava pela madrugada, era o prato de eleição na região, após o espetáculo, e acabou ganhando o apelido de ‘canja da meia noite’. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"“Dar uma canja”, enfim, é prática associada ao mundo artístico, às performances improvisadas que aconteceram tantas vezes em botequins, restaurantes e petisqueiras, num Rio que quase esquecemos. "}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"image.png","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/image_DeOp4p2.png"},"caption":"“Il Pasquino Coloniale” (jornal de São Paulo citando o estabelecimento no Rio), outubro de 1937","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}}],"version":"2.18.0"}

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